Sempre que chegava a cena era a mesma: terço em punho, ajoelhada, olhar fixo, atenta ao correr dos dedos entre Ave Maria, Pai Nosso e Mistérios contemplados. O que intrigava era que ela sempre estava ali, no mesmo banco com o semblante sereno de sempre. Encobrindo a pele clara, a leve maquiagem que não deixava de esconder sua palidez. Nenhuma ruga de expressão, nenhum movimento dos lábios... ela piscava suavemente como se seu corpo estivesse ali mas só. A alma transpassara aquela dimensão. Uma graça? Não, estava muito tranquila. Agradecia? Seus gestos não condiziam com as características de quem alcança algo. Dor? Não, o olhar nem era triste! Angústia? Era serena. … Fé?! Fé! É isso. Simplesmente isso. Alguém que estava ali por gosto, não por obrigação. Por sede, não por necessidade. Talvez um anjo... talvez um ser humano que encontrou em si a coragem de finalizar a Salve Rainha, fazer o Sinal da Cruz e sair... ou voar – parecia leve! Alguém que não pedia, não agradecia, nem reclamava e tão pouco cobrava. Apenas conversava com Deus e partia de Sua Casa com a convicção de que o Templo era apenas simbólico e que Ele estaria com ela aonde fosse... “Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota e adiar para outro século a felicidade coletiva. Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.”
“Eis o meu pobre elefante pronto para sair à procura de amigos num mundo enfastiado que já não crê em bichos e duvida das coisas. Ei-lo, massa imponente e frágil, que se abana e move lentamente a pele costurada onde há flores de pano e nuvens, alusões a um mundo mais poético onde o amor reagrupa as formas naturais.” Certo mesmo é que muitas vezes desconhecemos quem realmente somos. Nos subjugamos fracos, incapazes, pouco persistentes e quando deparamos com situações extremas descobrimos que apesar de todas as nossas limitações sempre há fôlego para recomeçar. Somos mais fortes do que imaginamos. Talvez a vida nos torne assim! Aprendi a encarar de frente o que o destino me reserva. O nome disso? Coragem... e o mais surpreendente: uma maturidade que chega sem avisar. São muitos os problemas mas raramente ponderamos as inúmeras graças, alegrias, dádivas e bênçãos. É como o conhecido axioma 'há males que vêm para o bem'. A cada instante aprendo a confiar nos desígnos de Deus. Aceitar tudo, seja o que for. “Vai o meu elefante pela rua povoada, mas não o querem ver nem mesmo para rir da cauda que ameaça deixá-lo ir sozinho.” Seja como for, o mundo não pára. E meus problemas, são realmente MEUS! Vez ou outra fraquejo. Sou humana! Mas ao abrir os olhos pela manhã agradeço a Deus pela minha família e pelo dom da vida. Daí, sinto a energia renovada. Estou pronta para começar de novo... “E já tarde da noite volta meu elefante, mas volta fatigado, as patas vacilantes se desmancham no pó. Ele não encontrou o de que carecia, o de que carecemos, eu e meu elefante, em que amo disfarçar-me. Exausto de pesquisa, caiu-lhe o vasto engenho como simples papel. A cola se dissolve e todo o seu conteúdo de perdão, de carícia, de pluma, de algodão, jorra sobre o tapete, qual mito desmontado. Amanhã recomeço.”